
[Tudo isso é apenas um sonho]

[Tudo isso é apenas um sonho]




Un chapitre
Queria dele um pouco mais de saudade, um pouco mais de lembrança e um pouco menos de bobagem. Queria saber se tudo o que ele disse é realmente verdade. Se fui eu a grande, a mulher, a constante e a única a saber do que ele realmente faz... Saber de todos os caminhos dele, e todas as expectativas, que são nenhumas, que ele de todo só tem coragem, mas que lhe falta a congruência e a essência fundamentais para ser quem foi quando estava ao meu lado... Porque eu era uma espécie de ânimo e de aterro sobre as suas pequenas coisas inúteis... Eu o amei todos os dias, enquanto estive ao seu lado, e, no entanto ele parecia se contentar com muito menos que aquilo... Chego a pensar agora se o erro foi tê-lo amado demais. Talvez, se ele de repente merecesse, mas acabo ficando com o ‘foi perda de tempo’. Embora não se deva medir o amor quando se ame, é preciso também pondera-lo. Porque agora, realmente, acho que o erro está na parte onde amei demais...
A vontade que deu olhá-la ali cortando os cabelos foi de juntar todos aqueles fios espalhados pelo chão e juntá-los e guardá-los junto a mim, só pra lembrar dela quando eu sentir um pouco de saudade e daí sentir o perfume dos cabelos dela, pra lembrar o momento que estive com ela e pra confirmar que ter apenas o sentimento não me basta... quero ela sólida, viva, e de cabelos ao vento como sempre a vi. E aqueles olhos... ah, aqueles verdes me matam.
Como numa brincadeira de roda, Daniela dançava. Dançava com o vento como par, e uma brisa a cingia delicadamente, fazendo seus loiros cabelos saculejarem seus fios e desprendê-los ao ar... ao longe escutava-se uma música... eram as cantigas de Daniela, que ecoavam por todo o campo recoberto de jasmim. A menina, que mantinha os olhos fechados enquanto repetia os delicados movimentos rodopiando pelo ar, usava sapatilhas vermelhas com bolinhas brancas e um laço rubro na ponta de cada uma, sua saia agarrada nos jasmins se misturava com as pequenas flores e de longe, quem a observava em seus sonhos mais distantes só conseguia notar uns braços e uns olhos verdes brilhantes. E depois Daniela caía no chão rindo-se e esticava os braços num movimento de liberdade. Costumavam ser assim as tardes da pequena menina, que parecia encantada. Pela manhã, ela levantava, penteava seu cabelo escorrido, colocava suas sapatilhas e ia para sua escola...
Daniela, 15 anos, síndrome de down, bordejava entre jasmins e lírios dos campos todas as tardes depois da escola, gostava de ler e de poesia, tinha um par de sapatos vermelhos e adorava bolo de maracujá.
Daniela entende o que é ser especial...
Mentira! Eu que sempre o procurei e mandei cartas abobalhadas pedindo perdão. Criei toda uma historia de amor e publiquei numa manchete popular, porque é bonito dizer que temos um amor. Quis crer o tempo todo que ele me amava e que eu nunca seria outra na vida dele, que sempre seria a primeira dama o primeiro amor. Eu que quis chorar e me entregar e me apaixonar por sempre querer algo que me fizesse bem. Será que é errado querer dar amor em abundância? Não sei, mas fui eu, somente eu que liguei pra saber onde estava e onde dormia. Pra saber do café da manhã, do almoço e da janta. Eu que só queria ser amada. Menti pra mim quando tudo era vago, continuei mentindo e alimentando minha loucura. E amei, amei ensandecidamente. E chorei até ficar sem pó, sem lápis e sem batom. Porque achei que esse amor de todo não era só meu. Que era um amor também amado. Mas um amor cheio de breves e fatores, cheio de mais ou menos. Parei de ser menininha aos quinze anos, mas continuei a acreditar nas historinhas de contos de fadas. Mas será que isso é pecado, querer viver só de amor? Continuo a olhar o telefone de três em três minutos, porque no meu velho achismo, ele ainda hoje vai ligar pra mim... É assim que acontece nos contos de fadas.
Desprezo qualquer tipo de relacionamento humano. As pessoas se conhecem até o ponto onde ficam chatas ou boas demais e aí se apaixonam. Sempre existe uma terceira pessoa que tenta estragar todo o nosso relacionamento por uma transa ou dois minutos de conversa. O outro embalado por um som de novidade acha que esses exatos dois minutos de conversa se parecem com vinte anos de compreensão e nos trai. Mesmo que inconscientemente ou por um não querer. Só que terceiras pessoas, essas de salas de aula, jamais vão entender que serão sempre planos de fundo, e que só servem para dar um melhor tom aos nossos relacionamentos. A vida delas é tentar. E pra nossa sorte não são essas que colocam tudo a perder, e sim pessoas como nós. Pois no final é sempre o nosso telefone que toca quando o tédio alcança. E elas ainda se acham muito espertas...Quero que você saiba uma coisa
Você sabe como é:
Se eu olhar a lua de cristal, pelo galho vermelho
do lento outono em minha janela,
Se eu tocar, próximo ao fogo, a intocável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva a você,
como se tudo o que existe: perfumes, luz, metais,
fossem pequenos barcos que navegam
rumo às tuas ilhas que me esperam.
Bem, agora,
se pouco a pouco você deixar de me amar
eu deixarei de te amar, pouco a pouco.
Se, de repente, você me esquecer
não me procure
pois já terei te esquecido.
Se você considera longo e louco
o vento das bandeiras
que passa pela minha vida,
e decide me deixar na margem do coração
em que tenho raízes,
lembre-se que neste dia,
nesta hora,
levantarei meus braços
e minhas raízes sairão a buscar outra terra.
Mas
Se cada dia,
cada hora,
você sentir que é destinada a mim
com implacável doçura,
se cada dia uma flor
escalar os teus lábios a me procurar,
ah meu amor, ah meu próprio eu,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem é esquecido
meu amor se nutre no seu amor, amada,
e enquanto você viver, estará você em seus braços,
sem deixar os meus...